Uma coisa interessante de trabalhar em jornalismo é a possibilidade de perder palavras. Um bom texto exige, entre tantas outras coisas, um amplo léxico gramatical (gostaram?) para não ficar repetitivo. Problema que se agrava com o cronômetro da redação, onde, por um descompasso cósmico, o tempo passa ainda mais rápido.
Então você se embala, escreve rapidamente, o texto parece fluir por seus dedos até o teclado, tudo bem organizado, o mais importante antes o menos importante depois, as falas dos entrevistados se costuram e de repente você para! “Qual é a palavra mesmo?”, você pensa e tempo continua correndo, as amarras que ligam toda a ordem do texto que ainda ia aparecer na tela vão se desmanchando.
Passar pra frente? Colocar um asterisco no lugar e depois voltar? Repetir mais uma vez o que já esta na linha de cima? E o tempo voando…
Na cabeça os pensamentos ricocheteiam procurando a expressão perdida: “Perai, é isso… não é quase isso, parece aquela outra palavra… ta vindo, sim é isso! Não, não é isso. Achei! Paralelepípedo essa é a palavra”.
E o pior é que, quanto mais simples e usual é o que você pretende achar, mais difícil isso se torna. O que leva o exercício a ser também um pouco mais frustrante.
Fico imaginando se em outras condições isso pode acontecer. Você esta jogando futebol, recebe a bola, domina joga na frente, levanta a cabeça. O atacante livre pela esquerda, você puxa a perna e… “Como é mesmo que a gente lança?” Nisso o jogo para, jogadores congelados por todo o campo e só correm seus pensamentos e o tempo da partida. “Hum, peraí, é isso! Toco com o peito do pé, olhando pra onde vou mandar a bola”. O tempo volta a correr, sua perna desce em direção a bola “NÃO, não, não tudo errado. Eu olho pra bola e…” E lá esta você chutando o chão para deleite dos adversários e raiva de seu companheiro de equipe.
Escrever pra uns, como no meu caso, é trabalho, e as diferenças entre as ocupações de cada um são realmente interessantes. Mas isso fica pra outro dia.
Escrito, toscamente revisado e lentamente pensado por Felipe Castanheira
